RICO LINS E O FUNCIONALISMO NO SÉC.XXI
Joaquim Redig
Mar./Abr. 2009
1.
Muitos devem achar absurdo associar o trabalho de Rico Lins à corrente funcionalista do design. Não se trata, porém, de uma relação direta, nem conclusiva. É apenas um caminho para refletirmos um pouco sobre a nossa profissão. Um magnífico caminho, porque parte de uma obra magnífica.
Absurdo porque, aparentemente, não há qualquer semelhança entre o trabalho de Rico e as características formais do funcionalismo. Epa! Características formais do funcionalismo? Mas o funcionalismo é a própria negação do formalismo, e estamos nós a tomar um pelo outro? O funcionalismo, como o nome diz, não se baseia na forma mas na função, submetendo a primeira à segunda.
Quando eu era estudante, alguns colegas na Esdi consideravam o funcionalismo como uma grade (às vezes até explícita na obra!) a aprisionar a criatividade e a liberdade do designer. Mas ele é exatamente o oposto: sua grande conquista, para o design e para a sociedade, foi nos libertar das normas visuais, do academicismo, que resultam no estilo, concentrando-nos nas necessidades do próprio objeto, na sua própria realidade, decorrente de seu uso e produção, acreditando que desta energia assim concentrada no problema nasçam formas novas, ao longo do processo de trabalho. Hoje, socialmente, o funcionalismo virou um estilo acadêmico, o que é uma contradição.
Como conta o próprio Rico, foi esta a questão com que ele se deparou ao ser chamado para desenhar as capas da revista alemã Kultur Revolution – um dos mais interessantes, e o mais longevo (há 27 anos ele trabalha para esta revista): quebrar o paradigma da aparencia funcionalista dominante nas revistas acadêmicas alemãs, da tipografia preta sem serifa em caixa baixa alinhada à esquerda. Mas esta também é uma função do design funcionalista –quebrar paradigmas, fazer de OUTRA maneira, fazer MELHOR – mesmo porque, para fazer da MESMA maneira, não é preciso um designer, basta uma máquina fotográfica ou um scanner ou um desenhista. A revolução visual que Rico faz com estas capas reflete o próprio nome da revista. A forma seguindo a função. Ou a comunicação.
Livrando-nos das normas -seja da linguagem organizada e transparente do funcionalismo dos anos 60/70, chamada de limpa ou clean, seja da linguagem densa e aparentemente desorganizada, típica do design gráfico dos anos 80 para cá, onde Rico se insere, deixando de lado esta dicotomia estilística- vejo seu trabalho como funcionalista na medida em que cumpre todas as funções a que seu objeto se propõe, que o usuário e o cliente demandam. Na sua palestra de abertura da exposição isso ficou bem claro: cada trabalho, uma solução; cada solução, um problema; cada problema, um cliente. E é isso que nos pede o funcionalismo, não um resultado formal, que vem, sim, mas como conclusão do processo, para confirmar a tese ou mesmo revê-la – não como princípio.
Seja na linguagem clean ou dirty, o imprescindível é a gestalt, estrutura visual capaz de tornar a imagem perceptível e memorizável, condição sine qua non da comunicação visual. E a gestalt está lá, presente, senão em 100, em 99% da obra de Rico Lins!
Não cabe neste artigo uma análise ampla do tema. Trago somente alguns pensamentos iniciais, que venho acumulando há algum tempo, sobre o funcionalismo na atualidade. Este evento -exposição, palestra e mesa redonda- ofereceu-nos uma ótima oportunidade para levantar a questão novamente. A consistência do trabalho de Rico nos garante o respaldo necessário para fundamentar a discussão. É preciso mantê-la acesa.
2.
Funcionalismo é a consideração das funções de um objeto, em seu projeto. Quais funções? TODAS. Quer dizer, todas as que beneficiam o usuário, e o meio-ambiente (o segundo nem precisaria ser dito, pois beneficiar o meio ambiente é o mesmo que beneficiar o usuário).
Esse pensamento surgiu no final do Séc. XIX e prolongou-se ao longo do XX como base conceitual do design. A idéia foi lançada em 1896 pelo arquiteto estadunidense Louis Sullivan, com a frase “form follows function”, ou a forma segue a função.
É assim que a frase ficou conhecida, mas repare que o que ele diz mesmo, 2 vezes neste pequeno trecho que transcrevo adiante, é que “a forma sempre segue a função” (form ever follows function) – o que é muito diferente. O conceito subentende e pretende permanência, ao tomar como modelo a estrutura da natureza, onde cada forma (e cada cor) só existe dentro de determinada função natural. Numa tentativa de tradução:
“Quer se trate da águia planando nos ares ou da macieira em flor, do incansável cavalo da carga, do cisne alegre, do carvalho frondoso, dos meandros do rio, das nuvens que passam, sobre o sol em movimento, a forma segue sempre a função, e esta é a lei. Não existe mudança de forma sem mudança de função. As rochas de granito, as colinas indefinidamente contemplativas, permanecem por eras a fio; a luz nasce, toma forma, e morre num vislumbre. É a lei universal de todas as coisas orgânicas, e inorgânicas, de todas as coisas físicas e metafísicas, de todas as coisas humanas e de todas as coisas sobre-humanas, de todas as verdadeiras manifestações da cabeça, do coração e da alma, que a vida é reconhecível em sua expressão, que a forma sempre segue a função. Esta é a lei”. (pag. 13 do livro “Form and Function”, de Charlote Benton, com Denis Sharp, The Open University Press, London 1975).
Envidraçar os prédios e colocar ar refrigerado é considerado uma solução funcionalista –porque nascida de arquitetos ditos funcionalistas, no período em que vigorava o funcionalismo- mas não é, porque não beneficia nem o usuário nem o meio-ambiente. Os erros do funcionalismo não decorrem da aplicação de suas teses, mas, ao contrário, decorrem da não aplicação de suas teses.
Funcionalismo não é um estilo formal, como pensa e divulga a mídia, e mesmo os designers. Com o tempo, o funcionalismo acabou realmente gerando um estilo formal, mas este foi apenas 1 dos resultados de sua aplicação histórica ao longo do Séc.XX e não corresponde ao conceito original, que, ao tomar a natureza como modelo, pretende abranger TODOS os “estilos”, negando assim a própria noção de estilo.
A partir deste equívoco –o de reduzir o funcionalismo a um estilo- considera-se funcionalista os objetos ou construções feitos de poucos elementos, por isso chamados limpos. O espaço vazio passa a ser útil, seja para descanso do olho, triturado pela quantidade de imagens que domina a vida cotidiana moderna, seja para organizar o espaço informativo, separando cada parte do objeto ou mensagem, conforme a função. O Fundo, então, vira Figura, passa a dialogar com ela. Um desdobramento dessa tese diz que “o menos é mais”. O valor estético, sintático e semântico, estaria na baixa intensidade. Na música brasileira este pensamento desabrochou com a bossa nova, na mesma época em que servia de meta e metodologia à arquitetura e ao design –este iniciante, as outras duas já maduras- além de influenciar também as artes plásticas, com o concretismo.
Também é comum associar-se o funcionalismo a objetos frios, neutros, pálidos, sem emoção… Nada mais longínquo do conceito original de Sullivan, que toca o poético. Seria falta de emoção no uso, ou na percepção visual do objeto? No segundo caso, falta de emoção significaria falta de beleza? A cadeira Zig-Zag, de Rietveld (1932-34), a Barcelona, de Mies (1929), o cinzeiro cúbico de Munari (1957), as entradas do metrô de Bilbao, de Foster (1988-95), são peças consideradas funcionalistas, mas são também emocionantes, eu acho. E são famosas não por serem funcionalistas mas por serem emocionantes.
Outra interpretação equivocada do funcionalismo o associa a objetos com aparência tecnológica, chamados “hi-tech” pela mídia, como algo não natural, ou mesmo anti-ecológico, o que também é o oposto do conceito original, que nasce da harmonia da natureza.
Na Esdi dos anos 60 aprendi a alinhar os textos pela esquerda (em lugar do alinhamento blocado nas 2 margens, que então dominava) não porque os suíços estavam fazendo assim, mas:
1) porque assim, os espaços entre as letras e entre as palavras ficam homogêneos e harmônicos, e a harmonia é condição funcional para a leitura;
2) porque evita partir palavras no final das linhas, uma operação a mais -na leitura e na composição- e inútil;
3) porque, num bloco de texto, enquanto o alinhamento da margem esquerda serve para o leitor buscar a linha seguinte, o da margem direita não serve para nada, sendo usado apenas por uma questão formal, para conferir uma aparência retangular ao conjunto tipográfico, encaixando-o no formato da página. O resultado visual da margem direita livre, com o rompimento deste retângulo -tido como representativo do estilo funcionalista no campo da diagramação, na época revolucionário, hoje corriqueiro- não era a causa desse procedimento, mas sua conseqüência.
Já tive muitas oportunidades de dizer que, na Esdi, onde estudei de 1965 a 68, não aprendi a desenhar, mas a pensar o desenho. Não aprendi a fazer formas, mas a cumprir funções. E não apenas uma, mas todas as que pudéssemos observar, no contexto do nosso trabalho. As funções previstas no briefing, e também as não “previstas”, nascidas da realidade. Nunca esqueci esta lição de mestre Karl Heinz Bergmiller, co-fundador, ideólogo e professor da Esdi, quando, ao avaliar em aula uma mesa que tínhamos projetado como trabalho acadêmico, disse que estava fraca, e que se alguém sentasse em cima ela ia arriar. O comentário me pegou de surpresa! Na posição típica do aluno, inicialmente não aceitei a crítica: afinal, aquela função estava fora do briefing, em se tratando de uma mesa de refeitório para 2 pessoas, que deveria agüentar no máximo 5 ou 6 kilos (comida, bebida e respectivos apetrechos), bem menos que os 70 que pesa em média uma pessoa. E ele, sempre monossilábica e sábiamente, respondeu: sim, mas as pessoas sentam sobre as mesas.
É preciso não confundir “função” com “operação” de um produto. A operação de um automóvel consiste em abrir a porta, sentar, ligar o motor, passar primeira, acelerar, frear, estacionar, desligar. Estas são (algumas das) suas funções operacionais, digamos. No caso de um livro, por exemplo, as funções operacionais são a leitura, o manuseio, e a guarda do livro. Mas existem muitas outras, a serem consideradas pela multidisciplinaridade do design, ou pela visão de conjunto que norteia nosso processo de trabalho. Por exemplo:
- a função social do produto (que hoje está na moda e na mídia, mas nos anos 60 era um conceito quase revolucionário, restrito, no nosso caso, à ideologia da Esdi, e longe do mercado);
- a função cultural (ou a relação do design do objeto com o respectivo contexto cultural);
- e mesmo a função poética (citada pelo próprio Rico na mesa redonda, assim como as demais) ou estética (esta porém um tanto desprezada na Esdi, como veremos logo adiante).
Todas essas, e muitas outras, são funções do design. Mas costuma-se reduzir o funcionalismo apenas às funções operacionais de um objeto ou de uma mensagem gráfica. Esta é uma interpretação errônea do funcionalismo, ou no mínimo parcial, na medida em que toca apenas em 1 aspecto do objeto, enquanto, o que aprendi na Esdi é que se deve considerar TODOS os aspectos, todas as funções, todas as necessidades –humanas, biológicas, psicológicas, ambientais, sociais, econômicas, culturais, tecnológicas, etc. etc.- e atuar como um mediador capaz de equilibrá-las na materialização do produto, em benefício do usuário (a palavra produto aqui é empregada no sentido literal, como resultado de uma produção, gráfica inclusive, e não apenas como objeto de consumo).
Quem sabe, históricamente, essa confusão tenha sido gerada a partir da leitura –restrita- do próprio texto de Sullivan, na medida em que ele subentende, por exemplo, que o desenho da asa da águia é feito para que ela possa cumprir determinadas operações de vôo e caça, e nós podemos, estudando a forma dessa asa, entender isso. É o que faz a biônica, ferramenta fundamental do design. Mas esta seria também uma leitura limitada daquele texto, posto que esse desenho segue não só estas, mas infinitas outras funções, advindas do contexto onde a águia vive e sua relação com ele, o que transcende qualquer possibilidade de racionalização, e vai muito além da nossa capacidade de análise e conhecimento. Leis da natureza não têm explicações. Podem ser observadas, constatadas, comparadas, descobertas, aceitas, admiradas, aproveitadas. “A forma sempre segue a função” é, segundo Sullivan, uma lei da natureza. O design de qualidade, inovador, quando nos arrebata, como o vôo da águia, também não pode ser totalmente explicado. Mas quanto mais pudermos fazê-lo, melhor design faremos (como Oscar Niemeyer, arquiteto que não pode ser chamado de racionalista, ao dizer que, após desenhar a concepção de um novo projeto, senta para escrever sobre ele, e, se não consegue escrever, volta à prancheta e revê o desenho).
O fato é que é muito comum essa confusão entre função e operação. Mesmo na Esdi, havia esse problema, como lembra a designer Valderez Coelho da Paz, minha contemporânea na Escola. Alguns professores e alunos concentravam-se apenas nas funções operacionais e se esqueciam das outras, reduzindo o ensinamento a 1 preceito. E às vezes nem se chegava a trabalhar na forma, o que deixava o caminho incompleto. Afinal, ela é o resultado do processo, portanto imprescindível. Porque a função não substitui a forma. Me lembro que nossa preocupação principal como alunos, aquilo que pensávamos que iam nos pedir, aquilo que nos preparávamos para responder aos professores, era porquê e não o quê. Na Escola, me preocupava mais em fazer um projeto defensável, do que em fazer o melhor projeto. Fora da Escola não, sempre procurei o melhor projeto –que é também o mais defensável-, inclusive durante os 15 anos em que trabalhei com Aloisio Magalhães (desde estudante), já que ele mesmo nos estimulava nesse sentido.
Só se descobre alguma coisa pesquisando, experimentando, sem saber direito quando e onde se vai chegar, mas com a certeza de que se vai chegar contanto que se mantenha o rumo dado pelo tema, pelo problema, pelo contexto. Mas é preciso saber como mover-se por esse caminho. Não basta atender aos requisitos. Isso é indispensável, senão, não é design. São os requisitos que definem o design. Mas é a inventividade que o configura. E isso era pouco compreendido e pouco estimulado na Esdi dos anos 60. Esta realidade, que não era só da Escola, explica um pouco a freqüente associação entre funcionalismo e objetos frios, sem emoção.
Recentemente, o designer e professor Claudio Magalhães me falou sobre suas experiências sistemáticas e exaustivas na busca de diferentes formas de cortar e dobrar chapa metálica, que poderiam levar a novas soluções de design e fabricação de produtos feitos neste material. Quando Sullivan diz que a forma segue a função, ele não está dizendo que a forma vem necessariamente depois da função. No processo de trabalho, na procura sistemática de uma solução, muitas vezes encontramos, mesmo sem querer, uma forma que serve para outra função, diferente da que estamos buscando naquele momento. Pode-se criar uma forma, e só depois descobrir para que serve. Isto é pesquisa.
No escritório de Aloisio (até 1981), e no meu (desde então), em todos os projetos, uns mais, outros menos, nos dedicamos a experimentar, sistemática e exaustivamente, diferentes soluções formais e construtivas para o problema colocado. Em todo o projeto, há um momento de pesquisa mais intensa, sobretudo no começo do trabalho. Pode-se passar batido por essa fase, ou pode-se dedicar a ela mais tempo e atenção. A “criatividade”, em design, é diretamente proporcional a esse tempo e atenção. Em algum ponto do processo, mais adiante, essas formas casarão com as funções – como prevê o exemplo do Cláudio. Se a forma nasce antes, ela só vai desempenhar seu papel social quando encontrar uma função. Forma e Função se completam, como um casal. Uma não existe sem a outra.
O conceito básico de Sullivan é, até hoje, não só irrefutável, mas cada vez mais premente, no contexto atual –como lembrou o designer Roberto Lanari, também nosso contemporâneo na Esdi- diante da falência ambiental do mundo moderno, que exige da humanidade soluções limpas (agora literalmente), econômicas, e éticas, para as quais o design de ideologia e metodologia funcionalista tem muito a contribuir.
Entretanto, hoje em dia o funcionalismo é considerado uma moda ultrapassada. É bom lembrar que sua intenção nunca foi estar na moda, embora, históricamente, tenha gerado este resultado, entre outros. Mesmo assim, não vejo o funcionalismo fora de moda. Repare o Ipod. Existe hoje algum objeto mais moderno, mais na moda, mais global? E, na aparência, há algo mais funcionalista que o design do Ipod? Parece projeto de Dieter Rams para a Braun dos anos 60: um retângulo, branco, cantos arredondados, poucos botões, bem visíveis – nada de supérfluo. Não sei se o design do Ipod funciona mesmo ou não, porque não sou usuário. Sei que não me emociona: acho que o produto ofereceria mil outras possibilidades de design (na verdade todas as possibilidades, na medida em que, internamente, contém apenas de uma placa eletrônica!). Mas acho que ele serve para demonstrar que o funcionalismo não está fora de moda, pelo menos na sua vertente formal – a mais conhecida.
Nos espantamos com o movimento Memphis dos anos 80 e com o pós-modernismo no design do final do Século. Mas não se preocupem, como nos tranqüilizou mestre Bergmiller, é só uma moda passageira (se ele não disse isso, deve ter dito algo semelhante). Já passou. Se o pós-modernismo era uma proposta diferente do modernismo, porque não tinha nome próprio? Ou teria sido apenas uma ironia dos designers e arquitetos modernistas cansados de tanto modernismo, uma pequena sacanagem bem humorada, para brincar com a mídia, com o público, com a crítica, e com os funcionalistas ortodoxos?
O clean e o dirty, o puro e o misturado, são apenas ondas, ou ciclos históricos pendulares, movimento de contração e expansão que mantém a cultura viva, respirando. A História da Arte é a história dessa pulsação. Faz parte do processo a troca de gerações, as novas paradoxalmente negando as precedentes, que lhes deram toda a base e formação, mas cuja superação parece ser necessária para que se encontre um caminho próprio.
3.
Na mesa redonda, o trabalho de Rico Lins foi definido como pouco claro, pouco legível, carregado de ruído, e atrito (que, segundo o próprio Rico, gera energia), colocando-se todos esses atributos como positivos, em oposição aos valores de legibilidade funcional, que hoje em dia estariam ultrapassados. No mesmo sentido, foi dito também que seu trabalho negava o passado – que antecedeu a ele, Rico, ou seja o passado funcionalista, esdiano, escola onde ele próprio se formou, nos anos 70.
Eu acho o contrário: acho seu trabalho totalmente legível, claro, sem ruídos, nem atritos. Só vejo harmonia, ali. E comunicação. E energia, sim – quem sabe oriunda, ou geradora, do prazer estético. Ou da força da comunicação, estabelecida pelas imagens. Vejo ordem – ou uma desordem coerente? Vejo ainda coerência tecnológica, entre as formas adotadas e os meios produtivos empregados. Todas as funções cumpridas – num resultado arrebatador!
Polarizando o conceito, para se compreender melhor sua essência, afirmei naquela ocasião que considero Rico Lins um designer funcionalista – senão 100%, 99%! (sem querer ofender, ao contrário!). Mesmo que não seja plausível, a afirmativa serviu-me para transmitir um recado. Afinal, enquanto olhava seu trabalho na exposição, fui (re)vendo tudo o que aprendi na Esdi, e com Aloisio Magalhães, ao longo dos anos. Está tudo lá! Só que com outra cara, com outra linguagem, de outra época.
A afirmativa pode não ser plausível porque, no fundo, grandes artistas -aqui incluindo todos que trabalham com atividades de criação estética- transcendem os rótulos, as possibilidades de classificação, nunca encaixam perfeitamente numa gaveta só. Dizer que Picasso era um pintor cubista é muito pouco para ele. Dizer que Aloisio Magalhães era um designer funcionalista também é pouco. No fundo, são manifestações do talento que não cabem em categorias, em correntes, em épocas, ou lugares.
Nesse sentido, o trabalho de Rico Lins não é nem funcionalista nem anti-funcionalista, não é moderno nem pós-moderno, não é intuitivo nem racionalista, não é carioca nem paulista, nem parisiense nem novaiorquino, não é só design gráfico nem é só artes plásticas, não é do Século XX nem do XXI. É simplesmente arte. A mesma de Picasso ou Michelangelo (ou de Rietveld, Mies, Munari, ou Foster, ou ainda de Aloisio Magalhães, Milton Glaser, ou Pierre Bernard): perene, mesmo que seu objeto seja efêmero como apraz a seu autor, de cuja obra o cartaz é o maior exemplo.
É visível a fronteira que o trabalho gráfico de Rico faz com as artes plásticas, como lembra o título da exposição. Essa aproximação existe não porque ele trate o objeto de design como objeto de arte, já que, como diz, o trata como objeto de comunicação, com uma função explícita, portanto. Mas essa fronteira é atingida, ou quebrada, por causa da intensidade com que mergulha na linguagem visual (e “sai nadando”, como disse em ótima entrevista a André Stolarski, reproduzida no catálogo da exposição). Pela liberdade com que trata os elementos componentes do objeto, que, em conjunto, irão cumprir suas funções, as funções do design.
Não vejo essa exposição de Rico Lins como uma negação do passado do design brasileiro. Muito pelo contrário, vejo como uma afirmação da continuidade do caráter revolucionário do design brasileiro, que floresceu e dominou nos anos 60. Não vejo como um corte, mas como uma continuidade histórica. Rico é um herdeiro desse caráter, e tem sabido, como poucos, levá-lo adiante. “Viva!”.
Rico Lins – designer onívoro
Agnaldo Farias*
A obra gráfica de Rico Lins demonstra como são imprecisos os limites entre a arte e o design. Mais ainda: arte e vida. Mas comecemos pela arte, aqui compreendida no sentido amplo, sem se restringir às artes plásticas, mas desbordando para a música, dança, arquitetura, fotografia, moda, poesia… e, além disso, ignorando uma outra fronteira interna, aquela que até bem pouco separava as formas de expressão cultas, forjadas nas academias, das formas populares, nascidas de inteligências tão potentes que, como é frequente em nosso país, vingam em territórios inóspitos, áridos e violentos.
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* Agnaldo Farias é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP desde 2003 e consultor de curadoria do Instituto Tomie Ohtake (desde 2000). Foi curador da Representação Brasileira para a 25a. Bienal Internacional de São Paulo (2002) e curador geral do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1998 a 2000).
Territórios reinventados
Adélia Borges*
Todos nós pessoas, instituições, empresas estamos vivendo hoje, de alguma forma, a necessidade de combinar uma compreensão ampla do mundo a uma atuação que parte de um olhar e de um sentimento nascidos do local em que vivemos, da nossa história particular. Isso que hoje é um atributo da contemporaneidade Rico Lins já vem trazendo ao campo do design gráfico há algumas décadas.
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* Adélia Borges é jornalista e curadora especializada em design. Foi diretora do Museu da Casa Brasileira (2003-2007) e editora de design do jornal Gazeta Mercantil (1998-2002).
O perfeito é péssimo
Rafael Cardoso*
“O perfeito é péssimo.” A fala que dá título a este texto é extraída de entrevista concedida por Rico Lins a André Stolarski e incluída no presente livro. Ela é ótima, pois resume em poucas palavras uma trajetória de vida e toda uma visão de mundo. Quando Rico Lins voltou ao Brasil em 1994 – após mais de 16 anos de estudo e trabalho na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos – ainda prevalecia no cenário local uma ideologia antitética a essa fala. Pregava-se a perfeição não somente como meta, mas também como regra. Rigor, precisão, limpeza, funcionalidade eram as palavras de ordem, literalmente, que dominavam aulas de projeto Brasil afora. Por mais que caíssem os muros em Berlim e as estátuas de Lênin em Moscou, os velhos dogmas continuavam a dominar o senso comum sobre design – ou melhor, desenho industrial, como então era obrigatório chamá-lo – no país dos Bruzundangas.
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*Rafael Cardoso é escritor e historiador da arte, autor de A arte brasileira em 25 quadros (2008), O design brasileiro antes do design (2005) e Uma introdução à história do design (2000), entre outros.
Entrevista a André Stolarski*
O nome Gráfica de fronteira indica que o seu trabalho se faz na fronteira de alguma coisa. De modo geral, podemos dizer que é a fronteira do design. Mas ao contrário do que se pode afirmar de algumas obras que procuram ampliar os limites da linguagem, no seu caso a fronteira é também o limite do próprio design como disciplina, em que ele toca as artes plásticas, a música, a arquitetura, a fotografia e muitas outras. Se essa fronteira existe e existiu, é porque serve ou serviu para definir o que é design em contraposição a coisas que não são design. Quais têm sido as tentativas de definir essa fronteira e como o seu trabalho as amplia ou dissolve?
Nunca me aventurei a definir ou a traçar uma fronteira para o que é o design. Isso nunca fez parte do meu universo de preocupações, seja do ponto de vista da atividade profissional, do espaço expressivo ou da minha própria formação. Fui conduzido a esse universo da imagem que se chama design por meu interesse pela comunicação, por um lado, e pela visualidade, por outro. Ambas sempre me atraíram muito e descobri casualmente que elas se combinavam numa disciplina chamada Comunicação Visual, ensinada numa escola chamada ESDI [Escola Superior de Desenho Industrial].
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* André Stolarski é designer e sócio-diretor da Tecnopop, onde desenvolve projetos nas áreas editorial, expositiva e de identidade visual. Concebeu e desenvolveu o volume Alexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil e adaptou para o português o livro Elementos do estilo tipográfico, de Robert